sexta-feira, 5 de setembro de 2014

( )

não existe verdade
não existe história
que me agrade
o tempo é tão convexo
e tão corvarde
nesse texto que contesto
nesse dia que se arrasta
nesse cálculo complexo
nunca é cedo
nunca é tarde
nada basta
a história que imagino
é o roteiro que me invade
e a verdade imagine
está aquém 
da realidade
do espaço
em que me encontro
do pedaço
em que me perco
do poema 
que eu escrevo
do impacto
que recebo
que o destino
me reserva
na clareza
que desperto


quarta-feira, 18 de junho de 2014

NÃO

não vai ter taça
não vai ter graça
não vai ter copa
não vai ter cozinha
não vai ter almoço
não vai ter osso
não vai ter caroço
não vai ter janta
não vai ter santo
não vai ter canto
não vai ter hino
não vai ter sino
não vai ter fama
não vai ter grana
não vai ter cama
não vai ter dono
não vai ter dama
não vai ter xadrez
não vai ter freguês
não vai ter gol
não vai ter tam
não vai ter sol
não vai ter chuva
não vai ter água
não vai ter luva
não vai ter mágoa
não vai ter som
não vai ter silêncio
não vai ter justiça
não vai ter promessa
não vai ter comício
não vai ter praça
não vai ter início
não vai ter fim
não vai ter sim
não vai ter não
não vai ter jeito
não vai ter sujeito
não vai ter prefeito
não vai ter peito
não vai ter puta
não vai ter lucro
não vai ter bola
não vai ter papo
não vai ter roupa
não vai ter touca
não vai ter toga
não vai ter droga
não vai ter ópio
não vai ter dopping
não vai ter sócio
não vai ter negócio
não vai ter ódio
não vai ter pódio
não vai ter raça
não vai ter povo
não vai ter novo
não vai ter ovo
não vai ter granja
não vai ter frango
não vai ter penalti
não vai ter adidas
não vai ter nike
não vai ter like
não vai ter menos
não vai ter mais
não vai ter garra
não vai ter guerra
não vai ter paz
não vai ter
não vai ter

não vai 


domingo, 15 de junho de 2014

tudo permanece intacto ao tato tudo gira

em torno o ponto é só

amei

quanto canso e penso
em suicídio
penso logo existo
resisto e penso
tudo anda tenso
quando penso e lembro
do exílio
faço um sacrifício
existo e tento
tudo anda lento
quando canto e danço
o mistério
um eterno etéreo
danço e canso
tudo está tão sério
quando eu quero
quando prepondero
penso em suicídio
penso logo existo
resisto e penso
tudo anda tenso
quando penso e lembro
do exílio
faço um sacrifício
existo e tento
tudo anda tão lento
quando canto e danço
o mistério
um eterno etéreo
danço e canso
tudo que ofereço
tudo tem seu preço
apreço que dispenso
apreço que ofereço
penso em suicídio
penso logo existo
canto enquanto isso
canto
amo-te tanto

quarta-feira, 16 de abril de 2014

se

quando lua nova
vaza em peixes
quero confundir meu corpo
quente 
com tua pele branca
quero confundir a alma
os poros e a química
com as folhas e os cantos
e a grama
quero confundir os santos
e os pontos
quando a lua em peixes 
vaza nova de volta
nesse ano nesse ato insano
nesse engano
lembro do encontro
dos olhares antigos
que furtamos
pra esquecer
que isso não passa
de um verso incômodo e morno
transtorno de personalidade
condições de possibilidades
que as minhas mãos solitárias
apalpam na caixa de retalhos 
no fundo da gaveta do armário
naquele poema completo
escolhido a dedo
que no silêncio do segredo
me despiste muito bem



ele gosta de uma loira
ela prefere o whiskey
ele com um copo de gym
ela - gelo com arak
ela virou um conhaque
ele vem e vira as costas
ele chegará mais cedo
quem sabe quando ela volta 
então ele desaparece
dai ela faz um poema
ele finje que esquece
e ela bebe uma cachaça
enquanto ele só ameaça
ela chega mais perto
ele muda de assunto
ele morre de medo
ela muda de ideia
ela morre de inveja
ele volta da festa
ele prefere gelada
ela diz que não gosta
ela propõe uma aposta
ele disse a que veio
em poucas palavras
ela leu em seus olhos
o que ele admira
ela exala magia
ele esboça um sorriso
ela esquece o que disse
ela pensa que ele ama
ele ama o que ela pensa
ele não sabe quem ela é
ela não sabe o que quer


segunda-feira, 17 de março de 2014

é que

a vida realmente é feita de um dia após o outro dia
o dia é feito de feitos de nuances de sinais de sol de mar
o dia pode ter também um trem no seu trajeto um projeto um bem
o dia pode ser igual mas nunca é meu bem
pessoas casam tem filhotes fazem casas mudam de país
pessoas até vão de férias pra curtir
um dia após o outro dia vai saber o que pode acontecer
pessoas passam em concursos pegam seus canudos ganham prêmios
perdem a identidade por aí
bebem muito falam muito dizem o que não devem dizer
a vida realmente é feita de uma noite após o outro dia
é feita de efeitos sonhos nostalgia
é feita de momentos outros só magia
mistura de ilusão com imaginação bom dia
pessoas saem cedo andam muito pra ir trabalhar
pessoas dormem muito acordam tarde e nem era domingo
quer saber
pegam taxi pela noite adentro já não sabem se perder
um dia após o outro dia vai saber o que pode acontecer
pessoas compram casa alugam casas não tem nem onde morar
pessoas se divertem e outras morrem sem nos avisar
pessoa até fica doente sara cura toca sua dor
pessoa tem saúde tem saudade tem um prato de comida pra te dar
pessoa tem resposta fica em dúvida precisa desviar os olhos do olhar
os anjos sopram flautas vibram cordas emitem ondas
anunciando a vida o dia o amanhã que vai chegar




sábado, 15 de março de 2014

quando

quando o amor acaba
não sobra pedra sobre pedra
não sobra nada
não tem estrada
não tem caminho
destino
desatino

quando o amor acaba
não sobra mágoa
nem lágrima
nem nada

quando o amor acaba
é carta marcada
é uma cilada
amor que passa
perde a graça
disfarsa
vai embora
sem pressa
sem demora

porque quando
o amor acaba
não sobra nada
não tem descanso
que renove
não tem tempo
que repare
fica um estrago
um gosto amargo
uma rima
quando o amor acaba
o amor termina


quinta-feira, 6 de março de 2014

entre_tanto

se
vai mesmo
desaparecer
de vez
não diga palavra
de apego
nem deixe 
a porta (da casa) aberta
apague os rastros
use a sacada
saque sua faca
faça-se de tolo
que tudo que eu digo 
é besteira
é mentira
é bobagem
não ligo
a senha
é só uma chave
um entrave
mas
minha preocupação
é real

sábado, 1 de março de 2014

sinta

teu dedo na minha ferida
a roupa puída
a pele vencida
a meia cerzida
a vida
a chave que dá a partida
a carne moída
a casa varrida
a alma perdida
a lida
de alguém 
em qualquer despedida


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

vem

me dá um número
para contato
vem dar um trato
nesse trapo
em que me encontro
em razão do tempo
que anda tonto
faça as malas
peça a conta
acende aquela ponta
compartilhe o beck
o track o like o next
que nosso papo
vive truncado
anda sem rumo
de tão chapado
o amanhecer
está parado
perdeu o prumo
meu corpo nu
nesse poema



sábado, 8 de fevereiro de 2014

semente de ideia plantada em 2005

HOJE
céu de bladerunner
cinza azul violáceo
fim de tarde
as nuvens baixas sobre nossas cabeças
transformam as cores mil em tons de púrpura
telhados refletidos e cachorros latindo
 o telefone toca e a vontade de não atender
alô
era o vendedor
não
não vai chover sobre nossas cabeças
não
nem prenúncio de precipitação
nem gota perdida
céu chumbo seco de outono
ar que não respiro
mais um trajeto curto esbanjando diesel
e a noite caí
e a lua cresce
mas a ar odor permanece
diariamente
produzindo corpos mentes doentes
num corre corre esbaforido pelas calçadas
no trânsito estúpido entupido das esquinas
nas filas das clínicas corredores hospitalares
não vai chover pelos próximos dias
nem nunca
repete
minha cabeça pesada e poluída
enquanto os tons de céu púrpura violáceo
dão lugar a luz tosca do poste em frente à casa
noite alguma existe
perambulo atentamente entre as palavras
respiro pouco
bebo água e uisque no mesmo copo
no mesmo corpo
cigarro
catarro
poeira
anseio de chuveiro
água de chuva
cheiro de chuva
terra molhada
suores
ardores
tremores
que fosse esse o fim
distante dos melhores vinhos
tão longe de Paris
meu último gesto de ternura
um gosto de lágrima futura

que lentamente se inaugura