quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

vem

me dá um número
para contato
vem dar um trato
nesse trapo
em que me encontro
em razão do tempo
que anda tonto
faça as malas
peça a conta
acende aquela ponta
compartilhe o beck
o track o like o next
que nosso papo
vive truncado
anda sem rumo
de tão chapado
o amanhecer
está parado
perdeu o prumo
meu corpo nu
nesse poema



sábado, 8 de fevereiro de 2014

semente de ideia plantada em 2005

HOJE
céu de bladerunner
cinza azul violáceo
fim de tarde
as nuvens baixas sobre nossas cabeças
transformam as cores mil em tons de púrpura
telhados refletidos e cachorros latindo
 o telefone toca e a vontade de não atender
alô
era o vendedor
não
não vai chover sobre nossas cabeças
não
nem prenúncio de precipitação
nem gota perdida
céu chumbo seco de outono
ar que não respiro
mais um trajeto curto esbanjando diesel
e a noite caí
e a lua cresce
mas a ar odor permanece
diariamente
produzindo corpos mentes doentes
num corre corre esbaforido pelas calçadas
no trânsito estúpido entupido das esquinas
nas filas das clínicas corredores hospitalares
não vai chover pelos próximos dias
nem nunca
repete
minha cabeça pesada e poluída
enquanto os tons de céu púrpura violáceo
dão lugar a luz tosca do poste em frente à casa
noite alguma existe
perambulo atentamente entre as palavras
respiro pouco
bebo água e uisque no mesmo copo
no mesmo corpo
cigarro
catarro
poeira
anseio de chuveiro
água de chuva
cheiro de chuva
terra molhada
suores
ardores
tremores
que fosse esse o fim
distante dos melhores vinhos
tão longe de Paris
meu último gesto de ternura
um gosto de lágrima futura

que lentamente se inaugura